Enchentes que fecham escolas por semanas, ondas de calor que aumentam o risco de desnutrição em bebês, secas que reduzem o acesso à água limpa e à alimentação: no Brasil, os efeitos das mudanças climáticas já atravessam o cotidiano de muitas crianças e adolescentes. E vão muito além da pauta ambiental, chegando à saúde, à alimentação, à moradia, à educação e à proteção da infância.
O que as mudanças climáticas têm a ver com a infância?
Corpos ainda em formação, maior exposição e menos autonomia para se proteger explicam por que crianças e adolescentes estão entre os grupos mais afetados pela crise climática. Uma pesquisa do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), feita em parceria com a Universidade Federal da Bahia, a London School of Hygiene & Tropical Medicine e o Instituto de Saúde Global de Barcelona, analisou mais de 1 milhão de mortes de crianças menores de cinco anos ao longo de duas décadas no Brasil. O resultado: um risco de morte 95% maior em dias de frio extremo e 29% maior em dias de calor extremo, na comparação com temperaturas amenas.
Como o clima afeta a saúde de crianças e adolescentes?
Os corpos de bebês e crianças pequenas ainda não desenvolveram totalmente os mecanismos de regulação térmica, o que dificulta a adaptação tanto ao calor quanto ao frio. É por isso que o mesmo estudo do Cidacs/Fiocruz encontrou riscos especialmente altos entre recém-nascidos expostos ao frio extremo, um risco que muda de perfil conforme a criança cresce, já que o impacto do calor se torna mais relevante entre crianças de 1 a 4 anos. Nos dias mais quentes, os riscos vão de insolação e desidratação a problemas renais e ao aumento de doenças respiratórias e infecciosas, enquanto o frio pode levar à hipotermia e a complicações respiratórias e metabólicas.
Que relação existe entre mudanças climáticas e alimentação infantil?
O calor também chega ao prato. Outro estudo da Fiocruz, publicado no periódico científico The Lancet e baseado em mais de 6 milhões de crianças brasileiras entre 1 e 5 anos, mostrou que cada grau de temperatura acima de 26°C aumenta a chance de desnutrição infantil, com efeitos mais graves nas regiões Norte e Nordeste, em áreas rurais e entre crianças indígenas e pretas. A explicação passa pela economia: períodos prolongados de calor reduzem a produtividade agrícola, encarecem os alimentos e diminuem a diversidade nutricional disponível às famílias. Isso agrava a insegurança alimentar justamente onde a renda já é mais baixa.
De que forma o clima compromete moradia e proteção na infância?
Enchentes, deslizamentos e secas prolongadas atingem primeiro quem já vive em condições mais precárias. As famílias desabrigadas por desastres ambientais enfrentam perda de moradia, interrupção do acesso à água e à alimentação, e muitas vezes precisam se deslocar para abrigos temporários, o que rompe rotinas de cuidado, escolarização e proteção social de crianças e adolescentes. Esse cenário também amplia riscos de separação familiar, trabalho infantil e outras formas de violação de direitos em situações de emergência.
Como eventos climáticos extremos afetam a educação de crianças e adolescentes?
A escola é um dos serviços públicos mais afetados pela crise climática. Levantamento do Núcleo de Cidadania e Políticas Inclusivas mostra que mais de 1 milhão de crianças e adolescentes tiveram aulas suspensas no Brasil em 2024, principalmente por causa de alagamentos. Nas enchentes do Rio Grande do Sul daquele ano, milhares de escolas da rede estadual foram afetadas, e algumas nem puderam funcionar como abrigo, por terem sido igualmente destruídas, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden). O órgão também identificou milhares de escolas brasileiras localizadas em áreas de risco de desastres. Um relatório do Banco Mundial ainda associa a exposição a altas temperaturas a perdas de aprendizagem, com estudantes dos municípios mais quentes do país entre os mais afetados.
O que a Fundação Abrinq faz para enfrentar esse cenário?
A atuação da Fundação Abrinq em relação às mudanças climáticas caminha em duas frentes complementares, por meio do Programa Emergência Humanitária: a resposta e a prevenção. Na resposta a emergências humanitárias, o trabalho da organização tem se concentrado em situações relacionadas a questões ambientais. O que antes era chamado de "desastres naturais" hoje é reconhecido, em boa parte, como consequência da ação humana sobre o meio ambiente, e é diante desses eventos, como enchentes, que a organização atua junto a crianças, adolescentes e famílias atingidas, prestando apoio emergencial diante da crise.
Na prevenção, a Fundação Abrinq expandiu, a partir de 2025, as ações de educação climática. O trabalho começou com uma atividade chamada “Mural do Clima” e ganhou uma nova ferramenta em 2026, o jogo Clima em Jogo. As oficinas para conscientização e aplicação do jogo acontecem em duas frentes:
● Nos Centros de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (CCAs), em parceria com a organização RPG & Cultura
● Em escolas da rede estadual de São Paulo, por meio das oficinas da própria Fundação Abrinq, que também incluem a realização do Mural do Clima com os professores
A proposta é aproximar crianças e adolescentes dos conceitos de mudanças climáticas de forma lúdica, ao mesmo tempo em que os professores retomam esses conceitos e conhecem ferramentas que podem incorporar ao planejamento pedagógico e replicar com outras turmas. A meta é alcançar pelo menos 1.600 crianças e adolescentes com essas oficinas.
Recentemente, 36 crianças do CCA Gaos, em São Paulo – SP, participaram de uma oficina que utilizou o “Clima em Jogo” para explorar de forma lúdica e participativa, temas relacionados às mudanças climáticas, aos desafios ambientais e às possíveis soluções para o futuro.

